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24.6.13

Não seria eu.

Se não fosse a caixa de lembranças, as cartas guardadas, as roupas jogadas no sofá, o medo do escuro durante toda a infância, os problemas acumulados e as paranoias viciadas, não seria eu. Se não fosse a balada que eu não fui, as frases que eu não disse, as histórias que não contei, o meu HD danificado, as fotos que eu rasguei e depois me arrependi, não seria eu. Se não fosse todos os filmes e séries assistidos, todas as falas decoradas, todos livros lidos e as canecas colecionadas, se não fosse Olivia Wilde, Stana Katic e Hugh Laurie, de fato não seria eu. Se não fosse os tombos de bicicleta, o queixo ralado e o braço que nunca foi quebrado, as romãs, goiabas e mangas roubadas do quintal do vizinho, o quarto rosa que agora me incomoda, pela tatuagem da Sininho feita aos 14 anos porque fazia sentido, não seria eu. Se não fosse o fato do meu melhor amigo ter dado o meu primeiro beijo ou se eu ainda criança não tivesse noção do que estava fazendo, não seria eu. Se não fosse pelas mensagens não respondidas, por detestar falar no telefone, pela minha grande capacidade de me distrair com facilidade, não seria eu. Se não fossem os olhos que um dia minha mãe jurou que eram azuis e então ficaram castanhos, pelo cabelo cheio e ondulado, pelo tratamento de pele e hormônios incontroláveis da adolescência que me fizeram ser assim tão frustrada e dramática, não seria eu. Se não fosse pela sensibilidade, pela facilidade de me apaixonar, pelos corações partidos e amizades perdidas, pelas brigas e reconciliações, não seria eu. Se não fosse pelo "Eu te amo" dito na hora errada e para as pessoas erradas, pela mágoa, pelas merdas que escutei e pelo gosto azedo na alma, pelas unhas roídas e pela depressão que às vezes bate, não seria eu. Se não fosse pelos medos bobos, os pensamentos embaralhados, os sentimentos confundidos, o desespero antecipado e a afobação desnecessária, não seria eu. Se não fosse pela paixão por fotografia, a minha indecisão e insatisfação incompreendida, as palavras e intensões interpretadas de maneira errada, não seria eu. Se não fosse as roupas que não agradam minha mãe, pela preferência por tênis ao invés de salto, pelos brincos pequenos e a minha falta de vaidade, não seria eu. Se não fosse pelos palavrões, de fazer do meu sono algo sagrado, de procrastinar a vida e se aborrecer com bobagens, não seria eu. Se não fosse o perfeccionismo, a minha grande necessidade de ficar sozinha quando algo não dá certo, a minha mania de afastar as pessoas por causa da confusão emocional, não seria eu. Se não fosse pela vontade de viver a história do meu filme preferido, por todas as conversas montadas em minha cabeça, pelos meus shippers, pelas fanfics, pela A menina que roubava livros e de como boa parte da minha vida é absurdamente semelhante a algumas coisas que acontecem em Friends, Castle e House, não seria eu. Se não fosse pela minha família, pelas expectativas quebradas, pelas vontades e sonhos, não seria eu. Se não fosse pela primeira faculdade não concluída, pelos três anos e meio de curso de inglês, pelas amizades feitas em fandoms, por John Hughes não ter escrito e dirigido a minha vida, não seria eu. Se não fosse a minha memória seletiva, a minha obsessão por bisnaguinha, balas de yogurt, McDonald's e pelas dores de estômago por causa da cafeína, não seria eu. Se não fosse pela minha necessidade de escrever, se não fosse pelos meus muitos bloqueios e o meu vício na internet, não seria eu. Se eu não fosse pelo meu medo de mudanças, pelas incertezas da vida, se não gostasse de como as coisas são, do meu medo de crescer, por achar que ainda sou uma menina, de fato, não seria eu. Se não fosse por todas as vezes que dei a volta por cima, por encontrar a solução e rir para não chorar, pelas vezes que quis morar fora de mim, por todas as oportunidades perdidas, pela vontade de fugir para outro país, não seria eu. Se não fosse pelas viagens feitas, pelos banhos de mar para lavar a alma, pelas coisas observadas e pelas pessoas que deixo entrar na minha vida e por todas aquelas que expulso porque não valem a pena, não seria mesmo eu.